REDE DE INTRIGAS (NETWORK, 1976)
"Esta é a história de Howard Beale, apresentador do telejornal da rede UBS. Houve o tempo em que Howard Beale era um mandachuva na televisão, o poderoso senhor do jornalismo, com audiência de 28 pontos. Mas, em 1969, sua sorte começou a mudar. A audiência caiu para 22; no ano seguinte, sua esposa faleceu. Viúvo, sem filhos, uma audiência agora de 12 pontos. Howard passou a se atrasar, a se isolar e a beber em excesso. Em 22 de setembro de 1975, sua demissão foi-lhe anunciada, com duas semanas de antecedência, por Max Schumacher, presidente do serviço de notícias da UBS.”O que você acaba de ler é narrado em off logo no início do filme Rede de Intrigas, introduzindo o espectador para seu brilhante e profético roteiro. O personagem Howard Beale, vivido por Peter Finch, é a figura central da história, mas, claro, não é o único astro do show. Com um elenco encabeçado por William Holden e Faye Dunaway, além de competentes coadjuvantes do naipe de Robert Duvall e Ned Beatty, todos em performances um ou dois tons acima do normal (a histeria é visível em cada fotograma), Rede de Intrigas é um trabalho primoroso do diretor Sidney Lumet, uma incrível sátira ao mundo das grandes corporações e dos negócios por trás da tevê.
Um desastre de avião, a morte repentina de uma celebridade, câmeras escondidas denunciando corrupção, seqüestros transmitidos ao vivo, misteriosos assassinatos de crianças, enfim, qualquer assunto pode se transformar na grande oportunidade para que jornalistas exaltados, fofoqueiros, sensitivos, entre outras figuras, promovam um espetáculo que terá a real intenção de impressionar e atrair o olhar de milhões de pessoas ao mesmo tempo, o chamado "ibope".
Oprah Winfrey, a apresentadora mais popular dos EUA, disse certa vez que não consumia carne bovina por ser prejudicial à saúde; nos dias seguintes a sua declaração, a venda de carne caiu verticalmente no país, obrigando Oprah a se retratar. Não que ela seja uma desequilibrada do tipo que se vê na obra de Lumet, mas a comoção provocada por ela há alguns anos é um bom exemplo de como um simples programa de televisão pode ter notáveis reflexos na sociedade. Algumas dessas conseqüências nem são de tanta importância para os poderosos donos das emissoras, uma vez que estes se preocupam bem mais com a audiência e o faturamento de suas empresas. Mas quando um programa começa a gerar desconforto entre a população ou “passa do limites”, interferindo até nos lucros, a coisa muda de figura.
No filme, Howard Beale tem uma atitude bastante irresponsável, algo que o desespero e o alcoolismo poderiam ser usados como justificativa: durante o noticiário, informa sua saída do programa dentro de poucos dias, ao vivo, e ainda declara que irá se suicidar. Pasme! A equipe não sabe o que fazer, os responsáveis pela emissora ficam furiosos e querem que Max Schumacher (William Holden), diretor do programa, impeça Beale de voltar à bancada do jornal nos próximos dias. No entanto, os índices de audiência são os mais altos dos últimos anos e isso chama a atenção de Diane Christiansen (Faye Dunaway), a diretora de conteúdo da UBS. Ela sugere o seguinte plano: manter Beale à frente das câmeras, mesmo que o sujeito demonstre ser psicologicamente despreparado para aparecer no ar; em outras palavras, um homem completamente maluco.
O mais interessante é que o script consegue passar de uma trama a outra com surpreendente elegância e dinamismo, mas sem virar confuso. A loucura de Howard Beale, que em breve se transforma na "sensação do ano”, com seus discursos exacerbados acerca da “sujeira do mundo em que vivemos”, faz paralelo com o caso de amor entre Max e Diane. Aos poucos, Max se transforma em vítima da colega. Ele termina um casamento de 25 anos para ficar com Diane, mas percebe tarde demais o erro que cometeu (convém mencionar que a atriz de teatro Beatrice Straight faz aqui uma breve, porém hipnotizante, aparição como a esposa traída).
Diane é o estereotipo da mulher fanática por seu emprego, uma verdadeira workaholic. Ela respira televisão, só fala nos números da audiência, faz planos para a grade do canal, idealiza as reportagens mais escandalosas possíveis. Aparentemente, pensa no trabalho 24 horas por dia, até quando vai para a cama com Max. Ela possui total ciência do risco que corre ao deixar Beale na emissora, mas o sucesso é muito grande para ser jogado fora. Diane, em resumo, personifica o universo frio e metódico com que os veículos de comunicação em massa são tocados pra frente, um processador de dados que usa batom e saias, um detector de bombas que não faz questão de expressar nenhuma espécie de sensibilidade.
Beale, a bomba detectada, logo ganha um programa no qual pode expelir à vontade todas as insanidades que lhe vêm à mente. Platéias viram seguidoras fanáticas, incitadas a aplaudir ou a protestar sobre os mais variados assuntos. Mas quando o homem, de repente, passa a ofender imigrantes árabes e revela os planos de um negócio bilionário sobre a compra de uma rede associada pelos sauditas, os bastidores começam a suar frio. Beale pede para que seus espectadores enviem telegramas à Casa Branca pedindo para que o negócio não seja sancionado. Assim, milhões de pessoas o fazem, e uma fortuna é retirada do país. Já consegue imaginar o resto, não? Na verdade, o modo como tiram Beale do ar é a grande sacada, arrematando em grande estilo a natureza satírica da fita.
Rede de Intrigas é, sobretudo, uma corajosa e inteligente demonização das grandes corporações, ansiosas por lucros e altos faturamentos. A tevê foi o meio encontrado pelo premiado roteirista Paddy Chayefsky (de Marty e O Hospital), como algo de presságio. Se ligarmos um televisor hoje, em qualquer parte do mundo, teremos a sensação de que tudo o que Chayefsky idealizara se concretizou de alguma forma. Muitos assuntos tratados por ele ainda estão em evidência, porém num outro contexto (crises financeiras, guerras escandalosas, etc.). O que notamos é que a "espetacularização" de certos fatos, principalmente os trágicos, só vem aumentando desde aquela época, empregada dia após dia como isca. Sabe-se que muitos "peixes" fisgados tiram suas informações apenas por meio da televisão, ainda o maior veículo de comunicação do mundo (uma boa fatia do planeta permanece excluída da internet, sim, entretanto 9 a cada 10 pessoas têm ao menos um televisor em seus lares) e suas opiniões são moldadas a partir do que é exibido e de como isso é feito. Em 1976, um dos pôsteres promocionais do filme anunciava: “A televisão jamais será a mesma”. Incrível, mas, de fato, ela nunca mais foi a mesma.
0 Comments:
Postar um comentário
<< Home