curtas (11): pecados de guerra
O desconforto causado pelo cenário polêmico de Pecados de Guerra torna este o trabalho mais forte de Brian De Palma. Não digo que seja o melhor. Seus célebres thrillers hitchcockianos, como Dublê de Corpo (meu favorito) ou Vestida para Matar, ainda são, de longe, a maior contribuição dele ao chamado cinema "de autor", teoria refutada com veemência por muitos críticos dos Estados Unidos, onde De Palma jamais foi levado a sério conforme merecia. No entanto, ali estão várias marcas-registradas do artista, incluindo a enervante câmera lenta nas seqüências mais tensas e o clima onírico que brinca com o mimetismo da imagem cinética. Resumo: pode não ser o melhor, mas, sim, um dos melhores.De Palma é um virtuoso da câmera, sabe operá-la com uma habilidade ímpar, dando forma e beleza a roteiros muitas vezes fracos e tão esburacados quanto um queijo suíço. É o caso deste Pecados de Guerra, que parte de um fato verídico, ocorrido na Guerra do Vietnã, e que tenciona fazer de seu protagonista, o soldado Eriksson (Michael J. Fox), símbolo ideal da democracia americana nos anos 70, expressando os sentimentos de conivência, remordimento e tentativa de redenção, tudo nesta mesma ordem. Que aquele foi um conflito maldito, todo mundo já sabe: os americanos meteram o nariz onde não foram chamados, numa atitude vaidosa de demonstrar hegemonia bélica ao resto do planeta, foram enxotados e caíram no ridículo, dando início a um anti-americanismo que até hoje só vem ganhando adeptos por meio de situações recorrentes (a atual invasão no Iraque só revigora a atualidade do filme de De Palma).
Em Pecados de Guerra, um grupo de soldados americanos comete uma série de crimes hediondos contra uma jovem camponesa vietnamita: eles a seqüestram, a estupram e a matam. É certamente um filme revoltante, porém o cineasta trata o conteúdo com bastante deferência, embora não economize no realismo e na crueza das encenações, sempre delineando a psicologia de seus personagens. Engana-se quem diz que o enredo não explora bem a caracterização do elenco; fica evidente o intento de mostrar aqueles militares como um bando de adolescentes sem um pingo de responsabilidade, numa situação superconveniente para fazer o que tiverem vontade de fazer, já que se encontravam em plena selva asiática, longe de qualquer civilização e dos olhares da justiça. De Palma é direto: mesmo em plena guerra, um assassinato é um assassinato. O soldado Eriksson tem noção disso; a princípio, ele testemunha tudo passivamente, argumentando com seus companheiros sobre a gravidade da coisa e "contentando-se" em bancar o bom samaritano, limpando as feridas da garota indefesa, dando-lhe de beber e de comer, tentando se comunicar e assegurando que o pesadelo irá ter um fim. Logo, ele passa por sua crise de moralidade arranhada e sai em busca de punição, deparando-se com inúmeros obstáculos, o que já era de se supor.
Quantos casos parecidos não foram encobertos? Difícil responder. O máximo que Brian De Palma pode transmitir é o alerta de que o inferno não precisa ser fantasiado por filósofos ou estudiosos de religião: o inferno já está infiltrado na Terra. As guerras estão aí para deixar isso cada vez mais incontestável.
PECADOS DE GUERRA (casualties of war) – Estados Unidos, 1989
Direção: Brian De Palma. Elenco: Michael J. Fox, Sean Penn, Don Harvey, John C. Reilly, John Leguizamo, Thuy Thu Le e Erik King.
2 Comments:
Eu acho um crime um cara como o De Palma não receber o devido reconhecimento por sua obra. Vi esse Pecados da Guerra no SBT há alguns anos e, como você, também fiquei espantado e grato. O roteiro vacila em muitos momentos´, é verdade, mas o diretor compensa com sua câmera inquietante. Um belíssimo exemplar da guerra, com certeza.
Discutir a imprensa?
http://robertoqueiroz.wordpress.com
Acho Brian De Palma o mais subestimado dos grandes cineastas americanos vivos. Já foi até indicado à Framboesa de Ouro! Ele até errou algumas vezes, mas colocá-lo entre os piores é um desaforo total. 'Pecados de Guerra' é exemplo de como um grande profissional é capaz de tocar num assunto delicado sem transformá-lo num show de violência explícita sem aprofundamento de conteúdo, como um Mel Gibson, por exemplo, tende a fazer.
Abçs
Postar um comentário
<< Home