O SANGUE DAS BESTAS (LE SANG DES BÊTES, 1949)
Ao consultar pela segunda vez Os Olhos sem Rosto, a curiosa fantasia concebida por Georges Franju, numa caprichada edição em DVD da Magnum Opus, pude conferir também, dentre o material extra, o impressionante Sangue das Bestas, curta-metragem realizado pelo diretor francês, em 1949, sobre os matadouros de Paris. Até hoje, nenhum curta ou documentário foi tema de texto meu para este blog, no entanto acredito que O Sangue das Bestas, lamentavelmente obscuro para a maioria dos freqüentadores de cinema ou de videolocadoras (raras projeções em terras tupiniquins tiveram registro), seja merecedor de considerável destaque. Se para muita gente o filme tende a se erguer como uma aguda reação ao apetite humano por carne, existe nele a urgência de escancarar os métodos aplicados nos velhos matadouros, recintos onde a sujeira e os maus odores se embaralhavam para tornar ainda mais cruéis as imagens, nada além de um simples registro histórico. Registro que, privado de qualquer tergiversação filosófica, vem exacerbar o horror que antecede um mero churrasco de fim de semana.Na introdução, belas paisagens da capital francesa, ainda se refazendo da 2ª Guerra Mundial, são combinadas a uma narração munida de um sincero sentimentalismo. É como se estivéssemos perante uma fita de Jean Cocteau ou Marcel Carné sem saber. A câmera focaliza ruas cinzentas, parques, trens, barracas, restaurantes. O vento infiltra-se por entre galhos de árvores. Em suma, assistimos a uma breve crônica dos citadinos parisienses daquela época: uns apressados, outros descompromissados. São estes personagens sem nome que, mais tarde, irão guarnecer suas cozinhas com aquilo cuja “cultura” Franju logo trata de expor minuciosamente. A câmera, antes distante e contemplativa, passa a se aproximar dos mercados, obriga-nos a parar diante de imensos portões de madeira, sólidas fachadas de pedra, construções apinhadas de homens portando aventais. Um majestoso cavalo branco é conduzido para dentro de um desses edifícios. O tom da narrativa parece não sofrer qualquer espécie de agitação, contudo, quando um dos trabalhadores, devidamente apresentado ao espectador, num repentino disparo de sua pistola de ar comprimido, faz o belo animal cair morto em menos de um segundo, o horror passa a se instalar: estamos prestes a ver uma sucessão de imagens que dificilmente serão extirpadas de nossa memória.
Afirmar que O Sangue das Bestas veio como contra-ataque à técnica de extermínio nazista (o último campo de concentração havia sido desativado poucos anos antes), não chega a ser um total disparate. É possível que Franju tivesse mesmo a finalidade de fazer analogias, embora nelas falte coesão e, sobretudo, bom senso se meditarmos acerca do genocídio de milhões de pessoas inocentes por motivos absolutamente banais (a eugenia de Hitler, convenhamos, nada mais era do que fruto de uma mentalidade perversa) e fazermos comparação à morte de animais criados para servir de comida, um processo que apenas reitera a cadeia alimentar e toda a tristeza embutida no ciclo (assistir a um tigre matar a dentadas um filhote de antílope é natural, mas não deixa de ser horrível, certo?). Mesmo que a metáfora tenha sido intencional, não é justo minimizar a obra dessa maneira. Anteriormente no cinema imagens de abate foram empregadas com fitos políticos, só que de forma intencional. Em A Greve, Einsenstein teve a brilhante idéia de editar cenas que mostravam trabalhadores sendo fuzilados pela polícia czarista junto com as imagens de bois sendo despedaçados a faca. Portanto, mesmo não ilustrando o curta com as desagradáveis imagens do Holocausto, Franju parece ter algum objetivo latente de politizar seu trabalho. Será mesmo? O documentário está ali, incluído no DVD, meramente para documentar, ou melhor, desvendar a metodologia de um ofício tão comum, trivial, e nada mais, porém essas comparações acabam se tornando involuntárias.
Audiências modernas, ignorando o detalhe da época em que a película foi realizada, dispõem-se a interpretá-lo como um manifesto puramente ecologista, na intenção de fisgar o público, ou boa parte dele, e multiplicar o número de vegetarianos. Então o caráter “político” do filme se perdeu com o tempo? Ora, a resposta é negativa, pois é justo neste momento que temos uma imensa proliferação de partidos voltados para as questões ambientais (e há quem tente estabelecer o fim do consumo de carne por meio de projetos leis!). O resultado, no entanto, tende a não sair do zero: o mundo sempre foi carnívoro e nunca deixará de ser. Todavia, há de se prestar atenção no modo como isso é praticado: hoje, navios de proporções titânicas retiram toneladas de peixes em poucas horas, por exemplo, ao passo que até cinqüenta, sessenta anos atrás a pesca era quase artesanal, o que não comprometia de modo tão drástico o sistema ecológico. Outro exemplo: na China, é comum a tortura de animais criados para o consumo; li num revoltante artigo da revista SuperInteressante que, para a preparação de um prato típico, cães são jogados vivos em panelas de óleo quente e, ainda agonizantes, têm a pele arrancada. No filme de Franju, não vemos torturas propriamente ditas, exceto o constante pavor nos olhos dos animais (na maioria das vezes, eles demonstram consciência do próprio destino). Uma das seqüências mais tenebrosas é quando bezerros são amarrados e têm a cabeça cortada: o indefeso olhar dos filhotes, capturado em close pelo cineasta, é de partir o coração.
A carnificina é explanada feito um manual de aprendizagem. Os açougueiros, já indiferentes ao martírio dos bichos devido aos anos de prática, são um a um apresentados pelo nome e sobrenome, como campeões de natação a poucos minutos de um torneio olímpico. O jeito como eles reduzem um boi com mais de 200 quilos a pequenos filés é “admirado” tal qual um gênero artístico à parte. É penoso observar uma fileira de corpos decapitados se debatendo, os nervos ainda vivos, lançando centelhas elétricas às patas, todas frenéticas, enquanto o sangue jorra das fendas provocadas por facões afiados. Mas existe algo de especial nessa plasticidade toda, algo poético, por mais bizarro que isso possa soar. Além disso, a repugnância dos atos retratados faz nossa atenção voltar-se, claro, para a imundície na qual esses estabelecimentos funcionavam (poças de sangue por todos os lados, estômagos e fígados esvaziados entre um gancho e outro, cabeças postas lado a lado no chão, a serem carimbadas e numeradas). A narração abafa o som natural, todavia é possível presumir os gritos e ruídos assustadores que de lá emanavam constantemente. Franju maneja seu objeto de trabalho (a câmera) com a mesma frieza com que seus açougueiros-protagonistas movimentam a faca ou os demais utensílios de extermínio; por fim, a natureza e seus apelos alimentícios são exibidos sem atenuações, tudo em ponto de cru, uma obra de difícil digestão.
5 Comments:
Já tinha visto no Youtube um trecho deste curta, o que me deixou estarrecida.amante de animais como sou. ao ler esta matéria fiquei interessada emsaber mais.No entanto creio que não teria estômago de ver ,pois nem ao video consegui chegar até o final.
Parabéns pela matéria
Obrigado pela visita, Siby.
Puxa, Wagner, obrigado pela visita e pelas palavras (devo tomá-las como grande incentivo para continuar com o blog, embora sobre pouco tempo para fazer atualizações mais freqüentes).
Volte sempre que puder!
=)
oi, tudo bom?
gostei muito do seu blog e pretendo adicioná-lo no meu logo que eu reinaugurá-lo.
você escreve muito bem e seus textos são bastante interesantes. parabéns!
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