curtas (14): o sacrifício
Trabalho derradeiro do russo Andrei Tarkovski, O Sacrifício tem todo um jeitão bergmaniano de ser. Não é pra menos. No início dos anos 80, cansado de ver seus filmes sendo censurados ou maldistribuídos na então União Soviética, Tarkovski decidiu ir para a Europa ocidental, onde pôde, enfim, dedicar-se a sua arte com merecido status de gênio e em total paz e liberdade. Na Itália, fez o premiado Nostalgia, com script de Tonino Guerra, co-autor de inúmeras películas de Fellini e de Antonioni. Já na Suécia realizou O Sacrifício, juntando-se a freqüentes colaboradores de Ingmar Bergman: o ator Erland Jopherson, o diretor de fotografia Sven Nykvist e o figurinista Inger Pehrsson; taí a provável identificação dos fãs do grande cineasta sueco nas entrelinhas dessa obra (no fundo, até senti alguma semelhança com Luz de Inverno).
Elaborado num tom de intenso pessimismo, com base nos monólogos desesperados do protagonista, o filme se ergue como uma alegoria ao livre arbítrio dos seres humanos quanto à vida e sua capacidade de mudança ou de estagnação. Para Tarkovski, o jornalista interpretado por Jopherson é signo daquilo que as pessoas, de modo geral, costumam apontar como figura heróica, sem a coragem ou força necessárias para assumir o papel na maior parte das vezes. Durante os festejos de seu aniversário, Alexander (Jopherson), acompanhado por familiares e amigos, escuta numa transmissão televisiva o anúncio de uma guerra nuclear de proporções trágicas. A notícia se caracteriza como a previsão do apocalipse. Alexander observa todos a sua volta tombar ora em histeria, ora em torpor. Relutante em externar a própria aflição, horas mais tarde, sozinho e ajoelhado em uma espaçosa sala de estar, Alexander, o olhar lançado ao vazio, faz um juramento: oferece os bens conquistados ao longo de sua vida em sacrifício, na condição de que tudo volte a ser como antes. Na verdade, ele promete dar as costas à própria vida em favor de seus entes queridos: a mais pura forma de altruísmo, diriam os espectadores.
O ditado popular assevera: “depois da tempestade, vem a bonança”. Em O Sacrifício, a bonança vem na forma de um incêndio, vem na forma do caos. É dessa maneira que Tarkovski encontra a conclusão apropriada para garantir a seu personagem principal a honradez perante um público exigente, que cobra de seus heróis um comportamento coerente. Uma questionável insanidade mental de Alexander vem acompanhada de atos de simples consistência moral; de certa forma ele não pode ser execrado por apenas cumprir sua promessa ou de ser fiel a si próprio e, sobretudo, àquilo que ele considera divino. À medida que ele faz pose de resignação ao longo da trama, um de seus companheiros de cena, carteiro e amigo de longa data, surge como um sopro de consciência a fim de lhe trazer a proposta mais absurda que já ouvira, porém vista como único escape ao problema: dormir com uma de suas empregadas, tida como feiticeira. A resignação (até aí falsa, fingida), aliada a sua crise de fé, o obriga a reconsiderar a oferta. Tarkovski jamais deixa claro o que é concreto e o que é ilusão: retrata tudo com a mesma frieza, de forma a nos questionar, extrair-nos uma dedução de todos os elementos expostos, sejam eles objetivos ao extremo ou tangenciando com o místico, num arremedo de sonho ou delírio. Somente ao nos aproximarmos do fim é que podemos sentir maior confiança na hora de enfileirar as idéias acerca do teatro verbal que, nas terras de Bergman, o diretor russo tratou de eternizar.
A última seqüência apresentada reenvia-nos à primeira: o filho pequeno de Alexander dá água a uma árvore seca, enfiada no solo um dia antes. O pai lhe contara sobre uma lenda, sobre um homem que, muitos anos atrás, teria irrigado uma árvore morta diariamente até esta voltar a florescer. Tarkovski, todavia, não ressuscita a planta. Estávamos de volta à realidade, portanto.
O SACRIFÍCIO (offret) – Suécia, 1986
Direção: Andrei Trakovski. Elenco: Erland Josephson, Susan Fleetwood, Allan Edwall, Guðrún Gísladóttir, Tommy Kjellqvist, Sven Wollter, Valérie Mairesse e Filippa Franzén.
Elaborado num tom de intenso pessimismo, com base nos monólogos desesperados do protagonista, o filme se ergue como uma alegoria ao livre arbítrio dos seres humanos quanto à vida e sua capacidade de mudança ou de estagnação. Para Tarkovski, o jornalista interpretado por Jopherson é signo daquilo que as pessoas, de modo geral, costumam apontar como figura heróica, sem a coragem ou força necessárias para assumir o papel na maior parte das vezes. Durante os festejos de seu aniversário, Alexander (Jopherson), acompanhado por familiares e amigos, escuta numa transmissão televisiva o anúncio de uma guerra nuclear de proporções trágicas. A notícia se caracteriza como a previsão do apocalipse. Alexander observa todos a sua volta tombar ora em histeria, ora em torpor. Relutante em externar a própria aflição, horas mais tarde, sozinho e ajoelhado em uma espaçosa sala de estar, Alexander, o olhar lançado ao vazio, faz um juramento: oferece os bens conquistados ao longo de sua vida em sacrifício, na condição de que tudo volte a ser como antes. Na verdade, ele promete dar as costas à própria vida em favor de seus entes queridos: a mais pura forma de altruísmo, diriam os espectadores.
O ditado popular assevera: “depois da tempestade, vem a bonança”. Em O Sacrifício, a bonança vem na forma de um incêndio, vem na forma do caos. É dessa maneira que Tarkovski encontra a conclusão apropriada para garantir a seu personagem principal a honradez perante um público exigente, que cobra de seus heróis um comportamento coerente. Uma questionável insanidade mental de Alexander vem acompanhada de atos de simples consistência moral; de certa forma ele não pode ser execrado por apenas cumprir sua promessa ou de ser fiel a si próprio e, sobretudo, àquilo que ele considera divino. À medida que ele faz pose de resignação ao longo da trama, um de seus companheiros de cena, carteiro e amigo de longa data, surge como um sopro de consciência a fim de lhe trazer a proposta mais absurda que já ouvira, porém vista como único escape ao problema: dormir com uma de suas empregadas, tida como feiticeira. A resignação (até aí falsa, fingida), aliada a sua crise de fé, o obriga a reconsiderar a oferta. Tarkovski jamais deixa claro o que é concreto e o que é ilusão: retrata tudo com a mesma frieza, de forma a nos questionar, extrair-nos uma dedução de todos os elementos expostos, sejam eles objetivos ao extremo ou tangenciando com o místico, num arremedo de sonho ou delírio. Somente ao nos aproximarmos do fim é que podemos sentir maior confiança na hora de enfileirar as idéias acerca do teatro verbal que, nas terras de Bergman, o diretor russo tratou de eternizar.
A última seqüência apresentada reenvia-nos à primeira: o filho pequeno de Alexander dá água a uma árvore seca, enfiada no solo um dia antes. O pai lhe contara sobre uma lenda, sobre um homem que, muitos anos atrás, teria irrigado uma árvore morta diariamente até esta voltar a florescer. Tarkovski, todavia, não ressuscita a planta. Estávamos de volta à realidade, portanto.
O SACRIFÍCIO (offret) – Suécia, 1986
Direção: Andrei Trakovski. Elenco: Erland Josephson, Susan Fleetwood, Allan Edwall, Guðrún Gísladóttir, Tommy Kjellqvist, Sven Wollter, Valérie Mairesse e Filippa Franzén.
2 Comments:
Um gênio como Tarkovski só poderia deixar como ultimo filme como esta obra poderosa, profunda e tocante.
Sim, foi um belo testamento de um dos mais significantes cineastas de todos os tempos!
Obrigado pela visita!
=)
Postar um comentário
<< Home