cinema-filia

Resenhas e reflexões sobre grandes filmes, por Pierre Willemin.

21.8.08

curtas (15): a primavera de uma solteirona

A srta. Jean Brodie é tão apaixonada pelas artes italianas que tenta convencer suas alunas do colégio Marcia Blaine, em Edimburgo, que Giotto foi o maior pintor de todos os tempos. Pendura uma reprodução da Monalisa nas austeras paredes da classe e ainda exibe slides com fotos de suas férias em Roma, onde pôde ver de perto um de seus maiores ídolos, Benito Mussolini. Ela chega às lágrimas ao descrever, com sua voz esganiçada e saturada de brio, a impressionante simetria da arquitetura romana e do Davi de Michelangelo, os quais define como uma sublimação ao passado e uma inspiração para o futuro. Resumidamente, a srta. Brodie é uma figura complexa, ambígua: temos receio em admirá-la, afinal algumas de suas idéias são pra lá de questionáveis, mas ela possui um charme tão contagiante ao defendê-las, uma paixão tão espantosa, que até passamos a gostar dela e a, sobretudo, sentir compaixão. Não é à toa que admire Mussolini, ela é igualzinha a ele...

Em Primavera de uma Solteirona, Maggie Smith transforma uma simples performance num espetáculo raro. Sua inspirada Jean Brodie, cheia de maneirismos e postura quase aristocrática, é uma composição genial de personagem, daquelas que não conseguimos imaginar outra pessoa para ocupar o posto. O filme, baseado no best seller de Muriel Spark, mostra uma professora de comportamento atípico na conservadora Escócia dos anos 30 que, em vez de seguir o currículo escolar do colégio feminino onde trabalha, resolve contaminar suas “meninas” — como ela gosta de chamar — com seu entusiasmo pelas artes e pela estética e com suas posições políticas, ancoradas por uma simpatia ao fascismo. Sem se dar conta, exerce uma influência de proporções titânicas em sala de aula, único solo onde parece germinar seu carisma, manipulando a cabecinha ainda ingênua de suas pupilas. A ingenuidade, porém, soa mais como um defeito da própria professora do que das adolescentes que a escutam com tanta admiração. Um defeito facilmente perdoável, aliás.

A conduta ameaçadora da srta. Brodie, que teria renunciado ofertas de casamento para dedicar sua “plenitude” (leia-se maturidade) à docência (muito embora ela tenha toda vez se envolvido com os homens errados), faz elevar um sentimento de reprovação nos colegas. Há um embate entre ela e a diretora do colégio, vivida pela também excelente Celia Johnson (de Desencanto), que parte da “terrível presunção” de que suas alunas estão amadurecendo rápido demais. Perdendo até o apoio de dois professores com quem teve breves casos amorosos, a srta. Brodie se vê encurralada, presa à armadilha que ela mesma ajudou a construir. Indefesa e com a obtusidade de espírito que, por muitas vezes, a tornara míope diante de todos, ela experimenta o amargo sabor da derrota. Feito um Júlio César de saias, a srta. Brodie, afinal, conhece seu Brutus, num momento em que nada parece restar-lhe a não ser assumir os próprios erros. De qualquer forma, ela estava mais do que certa quando dizia: “dê-me uma garota em idade impressionável e ela será minha para sempre”. Nada mesmo chega a detê-la!

A PRIMAVERA DE UMA SOLTEIRONA (the prime of miss jean brodie) – Grã-Bretanha, 1969
Direção: Ronald Neame. Elenco: Maggie Smith, Pamela Franklin, Robert Stephens, Gordon Jackson, Celia Johnson, Diane Grayson, Jane Carr e Shirley Steedman.

3 Comments:

Blogger athenarj19 said...

Gosto muito deste filme, maravilhosa a interpretação de Maggie Smith,, aliás uma das minhas atrizes favoritas , nem sempre lembrada entre as melhores. O filme também um pouco esquecido, mas vale a pena ver...

7:48 PM  
Blogger Pierre Willemin said...

É até subestimado. E a Maggie Smith se lança na personagem com uma paixão inspiradora mesmo. Mereceu cada milímetro do Oscar de Melhor Atriz.

6:12 PM  
Blogger Madalena Gatto said...

Ela sempre será merecedora de qualquer prêmio, é uma atriz excelente, diferenciada.

2:10 PM  

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