curtas (16): o vingador silencioso
Li uma vez, só não me recordo onde, que Jean-Louis Trintignant havia sido “a voz” do computador Hal-9000 na versão francesa de 2001, Uma Odisséia no Espaço, do Stanley Kubrick. Naquele mesmo ano de 1968 (parece até brincadeira!), Trintignant interpretou um pistoleiro e caçador de recompensas completamente mudo em um western de Sergio Corbucci, antigo colaborador do xará Leone. Resumo da ópera: num filme, ele não dá as caras, mas pontua presença com sua voz; no outro, vive um protagonista sem uma única fala...Com um desfecho inusitado, extremamente marcante, fica difícil tecer comentários a respeito de O Vingador Silencioso sem arruinar as surpresas do roteiro de Sergio Corbucci, escrito em cooperação por inúmeros amigos, entre os quais o irmão Bruno. No geral, vou me ater a alguns dados que são colocados em evidência logo no primeiro terço da história e, naturalmente, elogiar a impecável equipe técnica — vamos começar por ela, aliás: trilha sonora de Ennio Morricone; só por isto, o filme já mereceria uma conferida, afinal traz como embalo as músicas sempre bem-casadas de um dos maiores compositores cinematográficos de todos os tempos (mesmo que eu não dissesse o nome do responsável por aquelas notas arrancadas de violões, flautas e demais instrumentos típicos do gênero, ficaria fácil associar o presente trabalho com as melodias fixadas em filmes da mesma safra, como Três Homens em Conflito, por exemplo). A fotografia de Silvano Ippoliti é belíssima; longe da tradicional estética do Velho Oeste, temos aqui a neve em abundância no lugar da poeira texana (as filmagens se deram na Cortina d’Ampezzo, na região italiana do Vêneto, famosa por sua estação de esqui). E há de se destacar a cenografia realista de Riccardo Dominici, onde tudo parece sujo e ensebado, tal como os personagens que nela habitam.
Niilista ao extremo, O Vingador Silencioso é daqueles westerns em que a maldade é exacerbada por vilões quase tão diabólicos quanto um monstro de filme de horror. Neste caso, o show de monstruosidade fica a cargo do ótimo ator alemão Klaus Kinski, que antagoniza Silêncio (apelido do personagem de Trintignant, o “mocinho” do filme). Kinski faz Loco, caçador de recompensas que não hesita em matar os foragidos da lei e transformar em profissão sua trilha de sangue, um autêntico carniceiro que conserva os corpos das vítimas por baixo da neve, como se fossem peças de alcatra. Silêncio e Loco: dois homens que matam por dinheiro, dois homens pelos quais não torceríamos em situações normais, todavia, trata-se de um faroeste, então, por instinto, optamos por um dos lados, mesmo que sejam da mesma moeda.
Silêncio surge por aquelas bandas sem sobreaviso, aparentemente para acertar contas pendentes (em dois curtos flashbacks, assistimos ao episódio que o fizera calar-se para sempre, além de um outro acontecimento que encontraria repercussões naquela nova passagem por Snow Hill, o vilarejo onde tudo se desenrola), mas o destino encarrega-se de colocá-lo frente a frente com Loco num bárbaro duelo, ambicionado por uma viúva sedenta de vingança. Corbucci nos leva a um frenesi digno de mestre para, em seguida, acionar uma corrente de alta voltagem e imensa carga de fatalismo e nos dar um tremendo choque. Pode ser um alerta de que naquela época não havia espaço para heroísmo, o que, a propósito, esticar-se-ia para os nefastos tempos modernos. Ou talvez os homens valentes imortalizados por John Wayne e Gary Cooper em Hollywood fossem apenas parte de uma mitologia que o cinema europeu não se acha capaz de oferecer a seu público. Não há uma conclusão precisa, Corbucci quis apenas deixar um assombro no ar e inúmeras questões em aberto, só um inquietante silêncio surgindo como resposta.
O VINGADOR SILENCIOSO (il grande silenzio) – Itália / França, 1968
Direção: Sergio Corbucci. Elenco: Jean-Louis Trintignant, Klaus Kinski, Frank Wolff, Luigi Pistilli, Vonetta McGee, Mario Brega, Marisa Merlini e Carlo D'Angelo.
2 Comments:
Preciso ver esse filme com urgencia. Deve ser realmente muito bom.
Olha, Ronald, para quem gosta de um bom spaghetti, este é um prato cheio - hehe
Recomendo!
=)
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