curtas (17): nascida ontem
Com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrando em vigor e eliminando acentos tônicos, tremas e até "simplificando" o uso do hífen, cabe a pergunta: teria valido a pena esse tal projeto? Tomando-se por dona de uma língua utilizada por milhões de pessoas e sem dar a chance de, no mínimo, um referendo (igual àquele sobre o uso de armas de fogo), uma pequena parcela de intelectuais veio impor suas condições na tentativa de "aproximar" os países de mesma origem idiomática (o que é uma bobagem, uma vez que nunca houve um esboço sequer de estreitar essas relações, talvez no campo comercial, mas jamais no quesito cultural). A língua escrita foi então violentada e, mais uma vez, ficou claro que o investimento em educação continua em segundo plano no nosso país. O que se pode deduzir com tudo isso é que existe um certo interesse em manter a população afogada na ignorância, já que um cidadão semi-analfabeto é bem menos perigoso que uma pessoa instruída, dotada de meios com que possa se manifestar ou questionar a conduta dos políticos — os mesmos que concordam com esse tipo de Acordo, em vez de refutá-lo.É com esse pensamento que podemos apreciar Nascida Ontem, uma das mais refinadas comédias românticas de George Cukor, com Judy Holliday se esbaldando na pele de Billie Dawn, personagem que ela havia criado e levado aos palcos da Broadway 4 anos antes de o filme sair. Nele, Judy faz revisão do estereótipo da loira burra como a namorada de um figurão milionário que vai a Washington subornar deputados tão corruptos quanto ele. Na idéia de passar uma boa impressão a seus "clientes", o chefão resolve contratar um jornalista para que este dê uma bela polida nos modos e nos conhecimentos de sua garota, uma ex-showgirl. O tempo passa, a loira e o professor se apaixonam, mas o resultado das aulas não é o esperado: no filme, Judy entra estúpida e sai tapada. Bom, talvez nem tanto...
Ao contrário de outros títulos que exploram a figura da mulher fútil e dondoca no meio de homens ricos e poderosos, Nascida Ontem também revela uma nuance dramática que faz brotar um sentimento de afinidade no público para com a personagem central. Ela tem um passado, possui sentimentos superdelineados, e vai nos revelando pouco a pouco tudo o que se passa na sua mente e no seu coração, com o seu vocabulário um tanto limitado, sim, porém cativante. A cada descoberta, transborda um apego à vida simples, coisa que não se costuma associar a mulheres dessa estirpe. A atriz Judy Holliday consegue monopolizar nossos olhares em todas as cenas, é ela quem mantém o ritmo da história, ainda que tenha sido auxiliada por William Holden e Broderick Crawford, dois ótimos atores, aliás. Massacrada anos a fio por ter levado o Oscar de Melhor Atriz enquanto disputava com Bette Davis (A Malvada) e Gloria Swanson (Crepúsculo dos Deuses), ela prova que o prêmio não foi de todo injusto. Suas competidoras fizeram trabalhos mais memoráveis, sem dúvida, mas é complicado comparar dois dramas fortes com o trabalho de Judy nesta pequena jóia da comédia. O mais correto teria sido um empate triplo naquele ano de votação ingrata.
Sobre o enredo, a moça pode até não se sair tão bem nas matérias Gramática ou História Política, porém ela vai adquirindo alguns conhecimentos interessantes que a fazem justamente colocar em discussão os planos devassos de seu namorado. É nesse ponto que o chefão nota o quão perigosa a aquisição de certos conhecimentos pode ser num mundo movido por transações ilíticas. Teria sido melhor continuar aturando as burradas de sua amada? Ao menos ela não se interessava em saber o que era feito debaixo de seu nariz, da mesma forma como os brasileiros das gerações futuras não terão o trabalho de decorar regras de acentuação das paroxítonas.
NASCIDA ONTEM (born yesterday) – Estados Unidos, 1950
Direção: George Cukor. Elenco: Judy Holliday, Broderick Crawford, William Holden, Howard St. John, Frank Otto, Larry Oliver e Barbara Brown.
2 Comments:
Não gostei muito deste filme "Nascida Ontem", mesmo tendo um dos meus atores preferidos nele(William Holden).
Mas concordo inteiramente com seus comentários sobre a malfadada reforma ortográfica que nos está sendo imposta, autoritariamente, de cima para baixo, sem pedir a opinião daqueles que usam a língua que somos todos nós.
Verdade, pior que essa reforma não serve para nada... Valeu pela visita, Madalena
=)
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