curtas (18): vá e veja
O que mais me impressiona são os closes no ator Aleksei Kravchenko — a máscara enrugada e cheia de angústia que vemos no final do chocante Vá e Veja, de Elem Klimov (que finalmente ganha edição nacional em DVD) gera forte contraste com os traços ainda pueris do rosto que vemos no comecinho da história, o adolescente sendo recrutado pela armada bielo-russa para combater os nazistas, em 1943. Klimov vale-se dos melhores enquadramentos para reforçar a dramaticidade das situações recriadas, mas penso que a grande sacada do filme seja a inteligente sonoplastia, que nos incita múltiplos sentimentos a partir de um gemido agonizante de uma vaca, atingida por estilhaços num pasto à noite, ou de gritos de horror na tétrica cena do incêndio. O mais eficiente emprego de efeitos sonoros, no entanto, se dá na primeira parte, quando após uma série de explosões passamos a ouvir tudo de maneira abafada, tal como o pequeno protagonista, perturbado por uma semi-surdez momentânea.
Vá e Veja é a interpretação cruel de uma guerra caracterizada pelo sadismo e pela loucura de um homem que se tornaria a principal encarnação do demônio no século 20. O retrato de Hitler, caído na lama e transformado em alvo de incontáveis tiros, é avistado por Kravchenko enquanto uma montagem frenética nos aporta as hediondas imagens dos campos de concentração ou da trajetória política do füher, tudo em regressiva, terminando com uma foto do ditador ainda bebê no colo de sua mãe.
Muito mais do que uma sucessão de violência gráfica (física e psicológica), é uma obra que faz recuperação da história recente da humanidade, contudo sem se despir por completo de um apelo ao presente. Não dá para se esquecer das "limpezas étnicas" que ditadores mais contemporâneos, como o sérvio Slobodan Milosevic, por exemplo, promoveram em países do leste europeu, deixando um rastro ainda úmido de sangue. O que se conclui é de que o pesadelo de ontem parece não ter ensinado grande coisa para as gerações de hoje, uma vez que a sina de terror jamais deu sinal de acabar.
Vá e Veja possui às vezes um toque surrealista, mas não o efeito narcotizado de Apocalypse Now, de Coppola, outra monumental peça antibélica que ficará nos anais do cinema. A fita de Klimov é um pouco mais fincada no realismo extremo, só que com breves pitadas de fantasia e de humor negro, sobretudo na primeira metade, com Kravchenko numa atuação tangendo o caricato, apenas para quebrar o clima traumatizante e macabro do desfecho, que sobe lentamente até atingir um clímax talvez comparável apenas à real experiência de encarar uma guerra. Não é um filme agradável, claro, mas decerto ele jamais sairá da mente de quem o assistir.
VÁ E VEJA (idi i smotri) – União Soviética, 1985
Direção: Elem Klimov. Elenco: Aleksei Kravchenko, Olga Mironova, Liubomiras Lauciavicius, Vladas Bagdonas, Jüri Lumiste, Viktor Lorents e Kazimir Rabetsky.
Vá e Veja é a interpretação cruel de uma guerra caracterizada pelo sadismo e pela loucura de um homem que se tornaria a principal encarnação do demônio no século 20. O retrato de Hitler, caído na lama e transformado em alvo de incontáveis tiros, é avistado por Kravchenko enquanto uma montagem frenética nos aporta as hediondas imagens dos campos de concentração ou da trajetória política do füher, tudo em regressiva, terminando com uma foto do ditador ainda bebê no colo de sua mãe.
Muito mais do que uma sucessão de violência gráfica (física e psicológica), é uma obra que faz recuperação da história recente da humanidade, contudo sem se despir por completo de um apelo ao presente. Não dá para se esquecer das "limpezas étnicas" que ditadores mais contemporâneos, como o sérvio Slobodan Milosevic, por exemplo, promoveram em países do leste europeu, deixando um rastro ainda úmido de sangue. O que se conclui é de que o pesadelo de ontem parece não ter ensinado grande coisa para as gerações de hoje, uma vez que a sina de terror jamais deu sinal de acabar.
Vá e Veja possui às vezes um toque surrealista, mas não o efeito narcotizado de Apocalypse Now, de Coppola, outra monumental peça antibélica que ficará nos anais do cinema. A fita de Klimov é um pouco mais fincada no realismo extremo, só que com breves pitadas de fantasia e de humor negro, sobretudo na primeira metade, com Kravchenko numa atuação tangendo o caricato, apenas para quebrar o clima traumatizante e macabro do desfecho, que sobe lentamente até atingir um clímax talvez comparável apenas à real experiência de encarar uma guerra. Não é um filme agradável, claro, mas decerto ele jamais sairá da mente de quem o assistir.
VÁ E VEJA (idi i smotri) – União Soviética, 1985
Direção: Elem Klimov. Elenco: Aleksei Kravchenko, Olga Mironova, Liubomiras Lauciavicius, Vladas Bagdonas, Jüri Lumiste, Viktor Lorents e Kazimir Rabetsky.
2 Comments:
Sou fascinado com esse filme. Os closes são realmente assustadores e a transformação do ator é perfeita. Grande filme de guerra expressionista.
E finalmente ganhando vida no mercado nacional de DVDs.
\o/
A capa da Lume, no entanto, é horrorosa. Eles deveriam aprender com a Criterion a dar uma caprichada no design das capas.
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