cinema-filia

Resenhas e reflexões sobre grandes filmes, por Pierre Willemin.

25.10.08

curtas (19): o açougueiro

Quando a professora Helene finalmente descobre o mistério envolvendo Popaul, o açougueiro, veterano de guerra, do bucólico vilarejo onde ela administra uma escola infantil, atinge-se finalmente aquela sensação de horror que vinha sendo prometida ao longo de quase todo o filme devido ao constante uso de música gótica, em especial nas panorâmicas, contrariando as seqüências de pura descontração da comunidade, com festas de casamento, crianças brincando em bailes a fantasia ou caçando cogumelos na floresta. Tudo no filme soaria idílico até demais, não fosse pelo surgimento da polícia à procura de um assassino de mulheres.

Apenas uma das três vítimas é exibida, as demais são mencionadas en passant. No entanto, o thriller é rapidamente composto pelo cineasta Claude Chabrol quando todas as suspeitas parecem assinalar Popaul, amigo e pretenso namorado de Helene — esta, machucada por um relacionamento de anos atrás, deixa bastante clara sua negação quanto a um possível romance. Sobre a identidade do maníaco, é meio óbvio que Papoul seja o culpado, pois a economia de personagens no primoroso clássico O Açougueiro faz com que ele se torne o único “réu” plausível. Assim sendo, o espectador limita-se a aguardar o desfecho e torce para que a protagonista, interpretada magistralmente por Stéphane Audran, esposa de Chabrol e musa de quase todos os filmes de sua primeira fase (papel que seria ocupado mais tarde pela igualmente capaz Isabelle Huppert), consiga escapar do mesmo destino que as outras moças tiveram. Mas o filme, em sua conclusão, surpreende com as mudanças drásticas de seus personagens principais.

A arquitetura do suspense hitchcockiano e do erotismo latente caracterizam essa gloriosa fase de Chabrol, um dos maiores cineastas vivos no mundo. O Açougueiro não foge da regra: o clímax é dotado de uma sensualidade extraordinária misturada a uma intranqüilidade dos fatos ainda a serem narrados. Não sabemos ao certo os motivos que levaram Popaul a matar aquelas mulheres (uma delas, inclusive, era amiga do casal protagonista); existe somente uma tênue referência à conversa tida por ele e Helene alguns dias antes, sobre a solidão de ambos e dos efeitos provocados pela abstinência sexual. Enquanto isso, não sabemos se Helene deseja ser assassinada pelo “amigo”, uma vez que ela não reage do modo histérico como se supõe que outras atrizes em outros filmes fariam; ela quase chega a se entregar. O beijo selado pelos dois pode ser analisado como uma redenção de um e a cumplicidade do outro — uma transformação em dose dupla que espanta até mesmo a srta. Helene, pensativa diante do rio, ainda se refazendo do choque da noite anterior.


O AÇOUGUEIRO (le boucher) – França, 1970
Direção: Claude Chabrol. Elenco: Stéphane Audran, Jean Yanne, Antonio Passalia, Pascal Ferone, Mario Beccara, William Guérault e Roger Rudel.