cinema-filia

Resenhas e reflexões sobre grandes filmes, por Pierre Willemin.

4.11.08

curtas (20): baraka

Dar uma definição para o documentário Baraka, do americano Ron Fricke, pode parecer uma tarefa simples num primeiro momento, mas depois, refletindo bem a seu respeito, dizer que se trata de um filme sobre a humanidade, por mais abrangente que isso possa soar, é opinião de uma simplicidade injusta e pouco lisonjeira a esta grande obra. Baraka, basicamente, é um álbum de recortes que procura mostrar o nosso planeta de um ponto de vista antropológico, com cenas de diversas civilizações — da mais primitiva e resistente à mais modernizada e constantemente evolutiva —, manifestações religiosas, hábitos culturais, as mais variadas etnias que ocupam os cinco continentes, bem como o esplendor da fauna e da flora, sob uma postura genérica.

Lançado em 1992, o filme cerca-se de uma relevância ainda maior nos tempos de hoje devido a sua nem um pouco disfarçada consciência ecológica e social. Com tópicos recorrentes em debates e palestras mundo afora sobre o descontrolado crescimento demográfico e a contínua aniquilação da natureza, Baraka (que, num idioma de origem persa chamado sufi, significa “bênção” ou “sopro de vida”) dá um verdadeiro tabefe na cara do espectador. A montagem inteligente, que faz um close na expressão desolada (ou algo alarmada?) de um índio amazonense suceder a angustiante imagem de uma árvore sendo cortada e, em seguida, exibir uma favela, os casebres de madeira e tijolos aparentes acumulando-se num morro feito um recife de corais numa rocha, é de uma eloqüência ímpar.

Mesmo sendo possível — e como! — deparar-se com muitíssimas coisas belas em nosso mundo, Fricke tem preocupação mais aguçada em focar o lado ruim, como uma denúncia. É politizado, sim, só que de uma forma lírica. Contemplativo, porém pessimista, o diretor extrai beleza de incontáveis seqüências do tedioso cotidiano de bilhões de pessoas, e o exerce para justamente impressionar e atingir seu mais provável desígnio: transformar aquelas cenas de simetria e plasticidade intensas, quase coreografadas, em rituais de tristeza e de dor. E quando alterna registros do nosso mundo moderno com referências ao passado, Fricke consegue transmitir a idéia de que o homem apenas foi piorando com o tempo, aprimorando sua capacidade de destruição, aumentando sua ganância e fazendo de sua presença uma espécie de câncer maligno.

O mais admirável em todo esse espetáculo? Fricke abre mão de diálogos e utiliza somente música e sons-ambientes, potencializando o caráter universal de seu trabalho. Qualquer um, portanto, pode apreciá-lo. Ok, Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, já apresentava esse mesmo recurso 10 anos antes, com Philip Glass assinando a trilha sonora e o próprio Fricke na elaboração do roteiro, no entanto, cá entre nós, não achei lá essas coisas. Poucos documentários podem receber com justiça o título de transcendental, e Baraka é um deles, sem dúvida.

BARAKA (baraka) – Estados Unidos, 1992
Direção: Ron Fricke.

1 Comments:

Blogger Flávio Brun said...

Quero muito ver esse filme!

11:59 PM  

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