cinema-filia

Resenhas e reflexões sobre grandes filmes, por Pierre Willemin.

3.1.09

curtas (21): jeanne dielman, 23 quai du commerce, 1080 bruxelles

Existe uma teoria que diz: quando vão ver um filme, as pessoas não querem ver a própria realidade reproduzida quadro a quadro, desejam esquecer seus problemas e obrigações. Minha memória, agora, falha um pouco, mas há um cineasta bastante conhecido que usou essa mesma teoria numa entrevista (talvez tenha sido Alfred Hitchcock ou quem sabe Steven Spielberg). Uma belga de 24 anos chamada Chantal Akerman, recém graduada em cinema, decidiu refutar esse pensamento e, num esboço de "rebelião feminista", rodou em meados dos anos 70 o monumental Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles. O aberrante título é somente um detalhe, se assim podemos chamar. Seu conteúdo é ainda mais repulsivo para a maioria dos multiplexes e de seus habitués. Ao longo de quase 3 horas e meia, acompanha-se a enfadonha rotina de uma dona-de-casa, interpretada magistralmente por Delphine Seyrig (esplêndida como sempre), viúva e mãe de um filho adolescente.

Jeanne Dielman acorda cedo todos os dias, prepara o café, arruma a cama dela e do filho, tira o pó dos móveis, lava a louça, vai ao supermercado buscar os ingredientes do jantar, etc. Em nada se difere de milhões de outras pessoas cuja existência resume-se aos afazeres domésticos. Bem, uma característica, sim, a coloca em destaque: eventualmente ela faz programas; um homem para cada dia da semana. Seu meio de ganhar dinheiro é analisado pela câmera estática de Chantal com uma mistura de burocracia e submissão -- os clientes entram, Jeanne lhes tira os casacos, os acompanha até o quarto, uma elipse faz a iluminação do corredor do apartamento mudar do claro para o escuro, sugerindo a passagem do tempo, em seguida, o casal retorna ao vestíbulo, os homens vestem seus sobretudos e, do bolso, retiram um maço de dinheiro, que é recebido por uma mulher de meia-idade silenciosa e um pouco taciturna, como se estivesse tentando lembrar-se de alguma peça de roupa que faltou remendar ou de algum prato sujo na pia.

Chantal estuda a protagonista por 3 dias, e o que vemos é uma mulher cumprindo suas obrigações passivamente. A partir do segundo dia, porém, Jeanne dá a impressão de estar reconsiderando seu papel, reavaliando o jeito como é tratada pelos homens que a cercam: o filho que mal fala com ela ao retornar para casa todas as noites, e os clientes que a enxergam unicamente como um corpo sem alma ou sentimentos. No terceiro dia, as tarefas da personagem fogem acidentalmente do seu sincronismo doentio, eclodindo para um final perturbador, mas de certa maneira libertário. Detalhes que à primeira vista podem passar despercebidos contribuem para essa explosão, como quando ela, ao tentar redigir uma carta a familiares do Canadá, se dá conta de quão vazia é sua existência, por não ter grandes novidades a contar, ou como quando ela parece se perguntar o porquê de nunca ter se casado novamente após a morte do marido. Jeanne Dielman pode não ser o que Hitchcock ou Spielberg chamariam de diversão para as massas, contudo é um filme belo e interessante na sua estranheza. Emblema do feminismo cinematográfico, conserva-se como um pequeno grande tesouro dos anos 70 que merece ser redescoberto no cronometrado mundo que vivemos.

Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles - Bélgica/França, 1975
Direção: Chantal Akerman. Elenco: Delphine Seyrig, Jan Decorte, Henri Storck, Jacques Doniol-Valcroze, Yves Bical

1 Comments:

Blogger Fla Leme said...

olá Pierre,
Gostei deveras de sua resenha sobre este filme. Estou pesquisando o assunto do feminismo na década de 1970 e, por esta razão, gostaria muito de assitir este filme. Você saberia me indicar onde posso consegui-lo?
Obrigada

2:25 PM  

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