cinema-filia

Resenhas e reflexões sobre grandes filmes, por Pierre Willemin.

21.1.09

curtas (22): a viagem do balão vermelho

Ainda que não pareça, o cinema de Hou Hsiao-Hsien firmou-se praticamente inalterado desde os seus primeiros grandes trabalhos, como o magífico "épico" Cidade das Tristezas, até o mais recente A Viagem do Balão Vermelho, exibido na Mostra Internacional de São Paulo em 2008. Nele, a falsa economia de elementos na construção das cenas se faz marcante; falsa porque, embora a fuidez dos agentes colocados dentro e fora de quadro (sejam eles os personagens ou os objetos cênicos) seja tão suave a ponto de o ambiente se misturar de modo quase imperceptível com os atores e os elementos sensoriais, o apuro técnico com o qual HHH opera sua câmera (raramente estática, porém de movimentos lentos, executados na deslocação do eixo de um tripé) é de uma maestria complexa, vista com admiração por cineastas mundo afora.

A produção francesa A Viagem do Balão Vermelho, em particular, enfatiza esse minimalismo ao narrar, sem as grandiloquências de um Zhang Yimou, seu colega e conterrâneo mais famoso, por exemplo, o cotidiano de uma atriz (Juliette Binoche, surgindo de cabelos loiros), de seu filho e da babá chinesa deste último, uma estudante de cinema que em determinado ponto do filme faz menção ao curta-metragem O Balão Vemelho, de Albert Lamourisse, do qual parte a adaptação livre proposta aqui. No curta de Lamourisse, premiado com um Oscar de melhor roteiro original em 1956, um balão acompanha seu dono, um garotinho, feito um bicho de estimação por toda Paris. É uma dessas fábulas que transforma objetos inanimados em seres vivos. Na visão de HHH, o balão também ganha vida própria, porém não persegue o protagonista mirim; vira testemunha dos fatos, mas hesitante em se aproximar demais, tudo em planos longos (assim, o realizador coloca a nu a importância da montagem para a estruturação de um filme).

Existe ainda a típica negação do campo/contracampo, já apreciada por mim no belo Flores de Xangai, em que HHH faz uma inteligente brincadeira com os sons-ambiente e aquilo que Mark Lee Ping-bin, seu inseparável diretor de fotografia, põe em foco. Aliás, Ping-bin é outro "economista da imagem", obtendo resultados incríveis sem recorrer afoitamente a toda sorte de recursos, como zoons, travelings, enquadramentos forçados, etc. Outro aspecto a ser levantado é o improviso do elenco na maioria das cenas; tudo parece tão ensaiado, tão cronometrado. Mais uma falsidade a ser indicada: o roteiro não foi seguido à risca, Binoche e companhia tiveram a liberdade de trazer às filmagens um pouco de acaso e liberdade, o que se nota em algumas sequências que, de tão naturais, parecem quase ter sido gravadas às escondidas, como que por uma câmera oculta. Enfim, são estes e muitos outros motivos que fazem o cinema de Hou Hsiao-Hsien tecnicamente ser um dos mais soberanos das últimas décadas. Ao reler e homenagear a obra-prima de outrem — e em terra estrangeira, diga-se de passagem —, consegue atingir o ápice como poucos.


A VIAGEM DO BALÃO VERMELHO (Le Voyage du Ballon Rouge) - França, 2007
Direção: Hou Hsiao-Hsien. Elenco: Juliette Binoche, Simon Iteanu, Fang Song, Hippolyte Girardot, Louise Margolin e Anna Sigalevitch

3.1.09

Gostaria de pedir desculpas aos que acessaram este blog nos últimos 2 meses em busca de atualizações. Andei passando por uns contratempos e, para variar, tive uma daquelas "crises de inspiração" que,vez ou outra, batem à porta dos escritores.

Vi pouquíssimos filmes também, o que contribuiu para essa falta de estímulo. Conhecer a obra mais célebre de Chantal Akerman, que nem é tão famosa por aqui, mas cuja filmografia foi recentemente lançada num luxuoso box de DVDs nos Estados Unidos e na Europa, acendeu mais uma vez a vontade de realizar algumas anotações.

Sei que este site não é de apelo comercial, meus leitores decerto podem ser incluídos naquela categoria "cinéfilos doentes", uma vez que a maioria dos textos enfoca trabalhos anti-hollywoodianos, alternativos, alguns clássicos mais raros, etc. São sugestões aos cinéfilos que correm atrás dos lançamentos não convencionais no mercado de DVD, itens importados ou que simplesmente se permitem fazer downloads de filmes que jamais ganharão lançamento oficial no Brasil.


Espero estar contribuindo de algum modo para expandir os conhecimentos dos que dão uma passadinha por aqui...


Obrigado pela compreensão.

curtas (21): jeanne dielman, 23 quai du commerce, 1080 bruxelles

Existe uma teoria que diz: quando vão ver um filme, as pessoas não querem ver a própria realidade reproduzida quadro a quadro, desejam esquecer seus problemas e obrigações. Minha memória, agora, falha um pouco, mas há um cineasta bastante conhecido que usou essa mesma teoria numa entrevista (talvez tenha sido Alfred Hitchcock ou quem sabe Steven Spielberg). Uma belga de 24 anos chamada Chantal Akerman, recém graduada em cinema, decidiu refutar esse pensamento e, num esboço de "rebelião feminista", rodou em meados dos anos 70 o monumental Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles. O aberrante título é somente um detalhe, se assim podemos chamar. Seu conteúdo é ainda mais repulsivo para a maioria dos multiplexes e de seus habitués. Ao longo de quase 3 horas e meia, acompanha-se a enfadonha rotina de uma dona-de-casa, interpretada magistralmente por Delphine Seyrig (esplêndida como sempre), viúva e mãe de um filho adolescente.

Jeanne Dielman acorda cedo todos os dias, prepara o café, arruma a cama dela e do filho, tira o pó dos móveis, lava a louça, vai ao supermercado buscar os ingredientes do jantar, etc. Em nada se difere de milhões de outras pessoas cuja existência resume-se aos afazeres domésticos. Bem, uma característica, sim, a coloca em destaque: eventualmente ela faz programas; um homem para cada dia da semana. Seu meio de ganhar dinheiro é analisado pela câmera estática de Chantal com uma mistura de burocracia e submissão -- os clientes entram, Jeanne lhes tira os casacos, os acompanha até o quarto, uma elipse faz a iluminação do corredor do apartamento mudar do claro para o escuro, sugerindo a passagem do tempo, em seguida, o casal retorna ao vestíbulo, os homens vestem seus sobretudos e, do bolso, retiram um maço de dinheiro, que é recebido por uma mulher de meia-idade silenciosa e um pouco taciturna, como se estivesse tentando lembrar-se de alguma peça de roupa que faltou remendar ou de algum prato sujo na pia.

Chantal estuda a protagonista por 3 dias, e o que vemos é uma mulher cumprindo suas obrigações passivamente. A partir do segundo dia, porém, Jeanne dá a impressão de estar reconsiderando seu papel, reavaliando o jeito como é tratada pelos homens que a cercam: o filho que mal fala com ela ao retornar para casa todas as noites, e os clientes que a enxergam unicamente como um corpo sem alma ou sentimentos. No terceiro dia, as tarefas da personagem fogem acidentalmente do seu sincronismo doentio, eclodindo para um final perturbador, mas de certa maneira libertário. Detalhes que à primeira vista podem passar despercebidos contribuem para essa explosão, como quando ela, ao tentar redigir uma carta a familiares do Canadá, se dá conta de quão vazia é sua existência, por não ter grandes novidades a contar, ou como quando ela parece se perguntar o porquê de nunca ter se casado novamente após a morte do marido. Jeanne Dielman pode não ser o que Hitchcock ou Spielberg chamariam de diversão para as massas, contudo é um filme belo e interessante na sua estranheza. Emblema do feminismo cinematográfico, conserva-se como um pequeno grande tesouro dos anos 70 que merece ser redescoberto no cronometrado mundo que vivemos.

Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles - Bélgica/França, 1975
Direção: Chantal Akerman. Elenco: Delphine Seyrig, Jan Decorte, Henri Storck, Jacques Doniol-Valcroze, Yves Bical